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As Lorotas da Cobra Gabi - Gonzalo Cárcamo

Este livro vem me acompanhando há algum tempo como presente nas festas infantis. Conta a história de uma cobra meio maluquinha (a Gabi) que depois de cair em um balde de pinga começa a agir estranhamente… O livro é uma ótima introdução dos pequenos à nossa fauna e flora. Que, ao meu ver, é o grande diferencial, pois ao invés de histórias sobre ursos e animais que não encontramos por aqui, os personagens são uma cobra, uma capivara, um sapo e outros tantos que com alguma sorte (ou azar!) podemos topar nas nossas matas. Isto com certeza é o que me chama mais atenção e me faz comprá-lo mais de uma vez para dar de presente. =) Já para os adultos, as aquarelas sempre lindas presentes em todos os livros do Cárcamo com certeza irão encantar, tendo ou não filhos.

Pela história, pelas lindas aquarelas e pela brilhante idéia de usar animais da nossa terrinha,

Cinco estrelinhas!

PS. Para quem quiser conferir mais trabalhos deste autor, visite aqui.;)

O castelo branco, de Orhan Pamuk

O Castelo BrancoGanhei este livro no sábado passado! Não resisti e o aninhei em meus braços. De onde ele só saiu depois de proferir o último caracter: ponto. E pronto, me emocionei…. Magnífico seria pouco para descrevê-lo… Amo a maneira como Orhan Pamuk[bb] escreve! Seu estilo me lembra muito o do escritor italiano Ítalo Calvino, que adoro. Há muitas coisas nas entrelinhas desse livro, que me fizeram amá-lo ainda mais. E um questionamento que ecoa o tempo todo: o que faz as pessoas serem como são? Contarei tudo na resenha e nos comentários abaixo. Deleitem-se!

Resenha: O castelo Branco é o romance de estréia de Orhan Pamuk[bb] no Brasil. A história se passa em pleno século XVII, num mundo de sabedoria e barbárie. E é neste cenário que um italiano viaja tranqüilamente de Veneza para Nápoles, até seu navio ser capturado por piratas turcos. Devido aos seus conhecimentos, ele escapa de ser morto pelos turcos, porém, acaba sendo comprado como escravo por um paxá, que o dá de presente para Hoja, um estudioso turco conhecido como o Mestre. Quando Hoja e o escravo se encontram, há um choque inicial: os dois homens são tão parecidos entre si que chegam a se confundir. Sem nunca abandonar a esperança de voltar para a Itália, o veneziano ensina para Hoja tudo o que aprendera no seu país. A intrincada tapeçaria da trajetória dos dois, de obscuros curiosos de província a conselheiros diretos do sultão da Turquia, encobre um estudo delicado e complexo das relações entre a Europa e a Turquia. Mas a principal investigação de Pamuk nesta narrativa fluida e criativa é sobre a questão ancestral que perturba Hoja e ecoa em todos nós: o que, afinal, forma a nossa identidade e define quem somos?

Minhas impressões sobre o livro
Enquanto lemos O Castelo Branco é possível fazer uma comparação entre o caráter do ser humano no século XVII e hoje, notando que pouca coisa mudou. Este livro é na verdade uma fábula entre diferentes culturas e a essência humana, com todos os seus dramas, inseguranças, defeitos e pontos positivos. Mostra que todos nós somos um pouco contraditórios e que o ser humano que é capaz de cometer as piores barbáries, também pode ser responsável pelos mais belos atos de compaixão. Me apaixonei pela maneira de escrever de Pamuk desde que li o livro “Neve” e me identifiquei - em alguns pontos - com o protagonista, o poeta Ka (um trocadilho com “Kars”, nome da cidade na Turquia onde a história se passa). Seus personagens quase sempre são nostálgicos e solitários e os diálogos são magníficos, principalmente para quem adora a cultura turca. Cultura pela qual passei a me interessar desde que comecei a fazer dança do ventre (no ano de 2000). Mas Orhan Pamuk[bb] vai muito além… Escreve sobre as relações humanas, sobre o amor, sobre os sentimentos que aprisionamos, sobre a liberdade… E uma escrita primorosa e com um estilo todo próprio.

Veja algumas passagens magníficas deste livro:

Muitos acreditam que nenhum destino é determinado com antecedência, e que todas as histórias pessoais são essencialmente uma cadeia de coincidências. E, no entanto, mesmo os que assim pensam, muitas vezes chegam à conclusão, quando olham para trás, que acontecimentos vistos no passado como produto do acaso eram, na realidade, inevitáveis. Ele se fora para Veneza em meu lugar, casara com a minha noiva, e durante as festas ninguém descobrira que ele não era eu.

Estava com medo de fazer papel ridículo, e até perguntou, de brincadeira: se escrevermos juntos, não poderemos, também, contemplar-nos juntos no mesmo espelho?

Uma pessoa deve amar a vida que escolheu o bastante para chamá-la sua até o fim.

-> Prévia e originalmente escrito em Justale Resenhas de Livros: http://www.justale.com.br/livros

Spiderwick - Toni DiTerlizzi e Holly Black

Recentemente vi o filme Spiderwick[bb]. E o livro de hoje, não é só um livro, mas toda série.

(livro Spiderwick) [bb]

A edição é primorosa, com capa dura em alto-relevo, páginas encardenadas desencontradamente simulando um manuscrito (que, já ouvi dizer, rederam algumas confusões na editora de clientes dizendo que o livro estava com defeito), lindos desenhos preto-e-branco a bico de pena de Toni DiTerlizzi[bb], mas… o texto de Holly Black deixa a desejar. Ela parece pegar uma onda em toda essa moda de fantasia e fazer uma colagem de tudo de legal que ela já viu, com poucos bons insights próprios, como o monóculo para ver criaturas encantadas. Comprei o primeiro pelo conjunto da obra, comprei os outros pelos desenhos - e porque ficam lindos na estante.

Então a crítica de hoje vai além do livro, quando assisti o filme[bb], vi que faz jus à série. Efeitos especiais bem feitos, um elenco infantil muito bom, mas a história…

Três estrelinhas…

Ratos, Porcos, Gatos e quadrinhos envolventes

Um outro autor de quadrinhos que me acompanha há tempos é Art Spiegelman, autor de À sombra das torres ausentes[bb], Little Lit[bb] e Open me… I’m a dog[bb]. Colaborador de longa data da New Yorker, ilustrador de mão cheia e herdeiro do contumaz humor judaico, ele criou um estilo de desenho único, sempre reconhecível desde o primeiro momento que você toma contato com ele. A obra que me marcou, todavia, não foi nenhum desses lançamentos mais recentes, mas o óbvio e previsível Maus[bb].

(livro %E0 sombra das torres ausentes) [bb](Art Spiegelman livro) [bb]

Não que Maus seja uma obra óbvia ou previsível, muito pelo contrário, mas o seu lançamento – lá pelos idos de 1987 – foi tão badalado que o autor tornou-se sinônimo da obra. É como falar da Divina Comédia, ao me referir a Dante; dos Lusíadas, ao Camões; ao Dom Quixote, ao Cervantes. É ser óbvio.
Porém, a referencia óbvia e ululante ao Maus[bb], além das características tradicionais do óbvio ululante, é a excelência plena, tanto que é quase uma unanimidade tanto na turma da literatura quanto com o próprio povo dos quadrinhos.

(livro maus) [bb]

Aliás, minto.

É impressionante a quantidade de aficionados por histórias de homens de collant e spandex[bb] que insistem em socar outros homens de collant e spandex (ou um eventual robô, ou um alienígena despreparado) que sequer tomam conhecimento desse quadrinho memorável. Pior, é menor ainda a quantidade dessas pessoas que se encanta sinceramente com a tragédia que se desenrola ali.

Falo isso por experimentação mesmo.

Tenho o péssimo hábito de dar livros de presente. Sei que a maioria deles ficará no canto de uma estante ou largado na pilha de “presentes a reciclar”. Pouquíssimos possíveis leitores darão vazão e valor às árvores que morreram para que aquelas palavras fossem preservadas. Aprendi que livros são extremamente pessoais e que a relação que temos com eles é – além de literal – afetiva em diversas instâncias. E presentear com livros é uma habilidade complicada em dominar. Ainda assim, insisto.
Quando percebo que a pessoa tem uma sensibilidade boa, mas ainda não entendo os seus gostos, eu apelo para algumas escolhas fáceis. Uma delas, o Maus[bb].

Porém, o que tenho observado é que ele faz mais sucesso com quem normalmente não curte histórias em quadrinhos que com os fãs da arte seqüencial. Talvez por conta da temática – bem alienígena ao universo de gibis de super-heróis, aos mangás ou aos temas infantis da nossa tradição quadrinística – cujas linhas principais são a relação pai e filho e os campos de concentração nazistas e que se estende por mais de quinhentas páginas. Ou talvez pela abordagem usada. Ninguém é santo o tempo todo, ninguém é vilão. São todos animais tentando sobreviver a uma catástrofe da melhor forma que conseguem, quando conseguem.

Sim, animais.

Os judeus são retratados como ratos (maus é camundongo, em alemão); os alemães – obviamente – são gatos; os estadunidenses, buldogues; os franceses, gambás; os poloneses; porcos e assim por diante. Esse recurso de estilo que deveria amenizar a história cruel e vil desumanizando os personagens, na verdade reforça a essência de cada um deles, limando as diferenças assumidas para cada povo, exagerando-as e, ao mesmo tempo, tornando-as pequenas, mínimas, inverossímeis. E, apesar disso, nenhuma caracterização fica apenas na superfície e os desenhos planos não impedem de cada personagem ter uma cara própria, de ter três dimensões bem definidas. A ponto de reconhecermos cada rato, cada gato, cada porco, mesmo tendo a mesmíssima cara cada um deles.

A narrativa se reveza entre o passado narrado pelo pai de Art, Vladek, e o presente tenso do autor ao tentar extrair a fórceps o que estava por detrás das histórias desconexas do pai e é bem linear, não causando surpresas a quem começa a navegar no universo da família Spielgman, mas é tão rica, tão cheia de emoção que encanta sem precisar de recursos narrativos. É a história em si que encanta, envolve e rela o quão (des-)humano é o ser humano e mostra o limite das pessoas nas situações de limite. Não há herói. Não há vilão. Há apenas a vida.

Por fim é uma obra óbvia. Comoventemente óbvia. Como toda tragédia tem que ser.

Neil Gaiman - The Dangerous Alphabet

Plagiando o Zander em “Um Livro Por Semana”, pensei em comentar um livro ilustrado por semana, e o dia escolhido é o domingo, porque sim.

Então hoje, seguindo a linha “Neil Gaiman[bb]” que estou desde a FLIP, vou comentar The Dangerous Alphabet[bb], com texto do mesmo e ilustrado por Gris Grimly[bb].
***
(livros Neil Gaiman) [bb]
***
V é para Você precisa comprar. Este é um livro que todos que gostam de desenhos precisam ter. Não se engane pelo pouco texto, O Alfabeto Perigoso[bb]* é para adultos e principalmente, crianças. Acho que acertaram em cheio ao deixar o Dave McKean[bb] de lado desta vez e optar por Gris Grimly[bb]. McKean[bb] não acertaria na medida como Gris[bb] acertou ao desenhar uma atmosfera em um esgoto, com crianças aprisionadas por trolls e outras criaturas sinistras, andando com correntes ensangüentadas e claro - um herói, sem causar traumas e pesadelos nas crianças que vão ler. É tudo leve na medida certa, com um fundo manchado e um traço primoroso. Uma coisa que sempre costumo dizer é que gosto dos livros que não subestimam crianças, porque quando eu era criança eu era uma pequena traça e lembro de apelar aos livros dos meus pais porque achava os pra minha idade muito bobos. Bem, Neil Gaiman[bb] não fez isso em nenhum dos infantis dele, e Gris[bb] soube como fazer isso nas ilustrações com classe.

Cinco estrelinhas!

publicado originalmente em Cerejas, café e desenho

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